O Novo Mapa de Riscos do Setor de Elevadores na Espanha
By Olga Quintanilla Marful | Eventos | 31 de julho de 2026
Tempo de leitura: 18 minutos
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O setor de elevadores na Espanha enfrenta uma crise estrutural, com uma frota crescente de 1.2 milhão de unidades e cerca de 20% dos técnicos próximos da aposentadoria. Isso torna a segurança do trabalho, o treinamento e a continuidade da manutenção indissociáveis da competitividade. Especialistas alertam que as reformas propostas pela PRL (Práticas, Regulamentos e Normas) aumentariam a burocracia para as PMEs (Pequenas e Médias Empresas) e dificultariam o acesso de estudantes ao treinamento prático. Por isso, a Confemetal (Confederação Espanhola de Segurança e Tecnologia) defende a certificação padronizada dos treinamentos de prevenção para agilizar a entrada de profissionais qualificados no mercado. Novas normas de TI, a sofisticação tecnológica e a manutenção frequente aumentam a exposição a riscos, enquanto a digitalização e a conectividade criam riscos de segurança cibernética, falhas não identificadas e exigem habilidades cibernéticas dos técnicos. Inspeção independente, uma cultura de prevenção, apoio às PMEs e a visão da segurança como um investimento produtivo são considerados essenciais para a sustentabilidade do setor.
Evento online analisa os desafios da indústria do país.
Por Olga Quintanilla, EW Europe Correspondente
O setor de elevadores espanhol, que possui uma das maiores frotas da Europa, enfrenta um desafio estrutural que transcende a rotatividade geracional. A próxima aposentadoria de aproximadamente 20% de seus técnicos, segundo a Confemetal, une segurança do trabalho, treinamento em prevenção de riscos e continuidade da manutenção como fatores indissociáveis para sustentar a competitividade de uma atividade industrial essencial.
Essa foi uma das mensagens centrais transmitidas por José Miguel Guerrero, presidente da Confemetal, durante o evento online "Segurança e Saúde Ocupacional no Setor de Elevadores: Desafios, Regulamentações e Futuro", organizado pela FEEDA e coincidindo com o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, com a condução de Marta Ladero, assessora jurídica da FEEDA. O encontro abordou os principais desafios das medidas preventivas no setor — desde a manutenção de elevadores e a nova Instrução Técnica Complementar (ITC) até a digitalização, a formação de talentos, a visão europeia e a inspeção independente — e a intervenção de Guerrero inseriu a segurança ocupacional num contexto de maior visibilidade, como condição para garantir a produtividade, a qualificação profissional e a continuidade operacional.
A segurança ocupacional não pode ser avaliada apenas pelo acidente ou pela regulamentação, mas sim pela "capacidade real do setor de ter técnicos suficientes, qualificados e certificados para trabalhar em ambientes seguros". Assim, o presidente da Confemetal referiu-se ao grande desafio que a Espanha enfrentará para manter uma frota composta por 1.2 milhão de equipamentos, que cresce a uma taxa de 17,000 unidades anualmente, antes da próxima comemoração de cerca de 240,000 pessoas no setor metalúrgico, das quais 20% serão técnicos. Ele afirmou:
"Será necessário incorporar centenas de profissionais do setor para a manutenção. Consideramos este um aspecto importante e um elemento estratégico do setor industrial em geral, e de destaque em particular. A segurança e a saúde ocupacional devem ser entendidas como um investimento produtivo, que contribui para o aumento da eficiência, a redução dos custos decorrentes de acidentes e a garantia da continuidade da atividade."


Requisitos regulamentares inaceitáveis
No âmbito regulatório, Guerrero criticou a introdução de duas entidades empresariais que o Governo planeia introduzir na atual reforma da Lei de Prevenção de Riscos Ocupacionais (PRL) de 1995, nomeadamente: o agente territorial de prevenção e a modificação do recurso preventivo.
"Desde a Confemetal, temos trabalhado muito em conjunto com a Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE), e as demais associações empresariais e industriais apresentaram objeções para impedir que a reforma da PRL prospere nos termos propostos."
A Associação de Empregadores da Indústria Metalúrgica alertou que o Governo aprovará a medida "prontamente", caso seja necessário seguir o caminho legislativo para "manter a oposição" a esses novos requisitos regulatórios que "aumentariam ainda mais a já inaceitável carga burocrática sobre as pequenas e médias empresas (PMEs) que constituem a maioria dos setores de elevadores e metalúrgico".
A Espanha possui uma das maiores frotas de elevadores da Europa, mas enfrenta outro ponto crítico em seu setor: a formação de técnicos sem comprometer a segurança e sem que a formação se torne uma barreira de entrada. Nesse sentido, Guerrero considera que "a formação deve ser facilitada desde o acesso ao emprego e não implicar barreiras administrativas que impeçam a incorporação de novos talentos no setor".
Assim, ele explicou que existem muitos contratos anuais para estudantes que realizam estágios no setor de instalações e serviços metalúrgicos, os quais "enfrentam importantes barreiras no acesso a obras e centros de trabalho, pois as plataformas de consolidação de atividades empresariais e grandes empreiteiras exigem documentação de prevenção de riscos laborais comparável à de qualquer trabalhador, sem reconhecer que a formação oferecida pelos centros de ensino deveria ser suficiente". Para os empregadores do setor metalúrgico, essa situação causa um "bloqueio de fato" de acesso a ambientes reais, desestimulando as empresas a adotarem a formação dual e frustrando o objetivo de integrar talentos qualificados em condições de segurança jurídica e material, conforme exigido pelas empresas do setor.
Certificação PRL Training
A escassez de técnicos qualificados intensificou a concorrência entre as empresas do setor, colocando a atração e retenção de talentos entre as principais prioridades. Nesse cenário, a Confemetal defende a necessidade de "promover um modelo que combine máxima segurança com real operacionalidade, evitando duplicação e encargos administrativos desnecessários". Para ela, propõe "certificar de forma padronizada a formação em PRL (Profissional de Reabilitação Profissional) do estudante", com o objetivo de facilitar sua inserção em ambientes de trabalho reais e fortalecer a formação dual.
Guerrero insistiu que a segurança e a saúde ocupacional devem ser entendidas como um investimento produtivo que contribui para a melhoria da eficiência, a redução dos custos decorrentes de acidentes, a garantia da continuidade da atividade e o aumento da produtividade e da qualificação dos profissionais do setor.
Ele também mencionou o absenteísmo como um dos grandes problemas que afetam todas as empresas. Guerrero apresentou na época estatísticas "devastadoras" que denunciavam a incidência de incapacidade temporária (IT) devido a imprevistos comuns relacionados à prevenção, apontando para um aumento de cerca de 78% nos últimos cinco anos.
Guerrero afirmou que o PRL é "um fator estrutural de competitividade", no mesmo nível que treinamento, inovação ou estabilidade regulatória, e que os padrões de segurança fazem parte dos requisitos para operar em mercados internacionais e setores estratégicos.
Intervenções Específicas
Do ponto de vista operacional, Miguel Ángel Arcos, membro do Comitê de Segurança da FEEDA e responsável por Segurança, Qualidade e Meio Ambiente da KONE na Península Ibérica, abordou a rotina diária da manutenção de elevadores, bem como os riscos reais e as boas práticas. Explicou, então, as características particulares do setor de elevadores espanhol: combina uma das maiores frotas de elevadores do mundo, tanto per capita quanto em número total de unidades, com uma alta frequência de manutenção — 12 visitas por unidade por ano — o que aumenta a exposição dos técnicos e exige uma cultura de prevenção especialmente forte.
Nesse contexto, Arcos observou que "o ITC teve um grande impacto no setor", tanto pelo aumento da carga de trabalho quanto pela incorporação de novas inovações e ações técnicas que antes não eram viáveis. Em sua opinião, a segurança do técnico deve ser compreendida em um ambiente cada vez mais exigente, no qual as mudanças regulatórias, a crescente sofisticação tecnológica dos equipamentos, os resgates remotos, os elevadores conectados e a antiguidade de parte da frota obrigam a "avaliar os riscos com uma visão específica e adaptada a cada intervenção".
Arcos explicou que a segurança na manutenção exige atenção aos riscos inerentes ao trabalho diário dos técnicos. Entre eles, mencionou o controle do elevador e sua energia — elétrica e mecânica —, os riscos de aprisionamento e eletrocussão, as operações de içamento e suspensão de cargas, bem como a presença de aberturas no poço, o trabalho em altura e as condições ambientais específicas.
“O controle do elevador é absolutamente fundamental”, afirmou, acrescentando: O perigo de uma operação de manutenção não depende apenas da magnitude da carga, mas das “circunstâncias concretas” em que ela ocorre. Para ilustrar, ele declarou: “O que é mais perigoso, içar 80,000 kg a 87 m ou içar uma cabine de 800 kg? Muitas vezes, não se trata apenas de mais quilogramas, mas sim do contexto, de uma avaliação específica de perigo e risco”. Na opinião dele, esses tipos de questões são questões que as empresas devem considerar, combinando avaliações de risco com seus planos de prevenção.
Multiqualificação técnica
Mas Arcos não limitou a prevenção aos riscos estritamente técnicos de cada operação. Ele também abordou a falta de técnicos e a rotatividade de pessoal entre as empresas, fatores que podem enfraquecer a consolidação de uma cultura preventiva interna. “Em muitos casos, temos poucos técnicos e técnicos em constante rotatividade entre as empresas”, afirmou, antes de alertar que essa movimentação é “certamente arriscada” do ponto de vista da prevenção.
Neste contexto, referimo-nos também à “multiqualificação” dos técnicos de manutenção, que podem trabalhar não só em elevadores, mas também em escadas rolantes ou portas automáticas. Como explicou, esta falta de especialização pode gerar “riscos adicionais”, especialmente em pequenas empresas ou quando os profissionais têm de trabalhar com equipamentos com os quais não estão familiarizados.


Arcos demonstrou a semelhança na convivência, no setor, de empresas com grandes estruturas e PMEs com maiores dificuldades, uma realidade que também impacta a gestão da segurança. No entanto, lembrou que, apesar das diferenças entre as empresas, o impacto humano de um acidente de trabalho é sempre o mesmo: “É uma pessoa com nome e sobrenome, com família, e, no fim das contas, é isso que devemos sempre prevenir”.
Em resposta a essas alegações, Arcos destacou o trabalho do Comitê de Segurança da FEEDA, presidido por Carmen Carbonell, no desenvolvimento de instruções de segurança e vídeos de treinamento para seus associados, que são especialmente úteis para pequenas empresas. Indicou também a busca por um suporte preventivo mais especializado para o setor e mencionou o uso de ferramentas digitais e IA para analisar a comunicação de riscos dentro das empresas. Encerrou sua fala enfatizando a mudança cultural pela qual a prevenção de riscos ocupacionais está passando: em oposição às abordagens ultrapassadas, “nenhum acidente é aceitável”.
A escassez de técnicos qualificados intensificou a concorrência entre as empresas do setor, colocando a atração e retenção de talentos entre as suas principais prioridades.
Atitude preventiva
José María Obis, presidente do Comitê de Legislação e Regulamentos Técnicos da FEEDA, abordou o novo ITC e seu impacto na segurança como resposta regulatória a riscos concretos detectados no setor. Suas observações focaram na conexão entre acidentes registrados em elevadores e escadas rolantes e medidas técnicas e legais destinadas a preveni-los. É preciso reconhecer que a segurança não pode se basear apenas em regulamentações; ela também depende da “atitude preventiva” de empresas e profissionais.
Com base em dados da Associação Europeia de Elevadores (ELA), a Obis lembrou que, em 2020, houve uma queda no número de acidentes até 2022, ano em que foram registrados 459 acidentes com usuários de elevadores, sendo 11 fatais, 31 graves e 417 leves. Esses números ajudam a explicar a origem de alguns dos requisitos técnicos incorporados ao novo ITC.
Ele mencionou entre as causas desses acidentes: precisão de nivelamento (144); usuários atingidos por portas e objetos (65 casos, quatro deles fatais); ausência de portas na cabine, pessoas presas na cabine sem sistema de comunicação; movimento descontrolado da cabine; problemas com os dispositivos de travamento; paradas repentinas do outro lado do elevador e uso indevido do equipamento. Todas essas medidas estão previstas no Anexo VII do ITC.
Inclui também, entre outros, uma precisão de paragem de ±10 mm, a instalação de cortinas de luz, comunicação bidirecional na cabine, proteção contra movimentos ascendentes descontrolados e outros requisitos relacionados com guias, dispositivos de controlo de carga ou contrapesos.
Na análise de acidentes de trabalho, foi lembrado que, em 2022, 719 trabalhadores do setor sofreram acidentes, um número que se manteve dentro de uma faixa relativamente estável entre 600 e 800 acidentes anuais.
Na seção relativa à manutenção, a Obis observou que 521 trabalhadores sofreram acidentes em 2022 e listou causas como cortes, pancadas, aprisionamentos, movimentos descontrolados da cabine, quedas de altura e exposição a riscos elétricos.
No contexto da prevenção, ele enfatizou que as regulamentações desempenham seu papel e que as empresas dispõem de recursos como equipamentos de proteção individual, mas alertou que tudo se torna menos eficaz se “falhamos no nosso dia a dia com as nossas ações”. “A mudança é algo que temos de gerar nós mesmos”, afirmou, ressaltando que a segurança é uma “prioridade do setor” que não afeta apenas os departamentos de prevenção ou os gestores das empresas.
Regulamentos de escadas rolantes
Obis afirmou que as escadas rolantes estão abrangidas pela Diretiva de Máquinas e excluídas do Decreto Real 355/2024, o Código Internacional de Transportes (ITC) para elevadores. No entanto, argumentou que seria necessária legislação específica para escadas rolantes, que permitisse corrigir ou atenuar os acidentes que ele próprio presenciou em centros comerciais e grandes áreas.
Para fundamentar essa reivindicação, ele fez alusão aos dados de acidentes coletados pela ELA, que, em 2022, registraram três acidentes fatais, 11 graves e 143 leves entre usuários de escadas rolantes. Entre as principais causas estão escorregões nos degraus, aprisionamento entre o degrau e o painel lateral, uso inadequado com carrinhos de compras ou cadeiras de rodas, quedas devido a distâncias de frenagem insuficientes e perda de equilíbrio.
Obis chamou a atenção para o espaço de trabalho insuficiente e restritivo em elevadores sem casa de máquinas e escadas rolantes, onde a concentração de máquinas e painéis de controle exige o reforço das medidas de segurança para evitar acidentes.
Falhas Fantasma
Em seguida, o terceiro bloco abordou o tema "Digitalização e Segurança: Tecnologia para Prevenção e Eficiência nos Serviços", apresentado por Pedro Piñero, presidente da Comissão de Digitalização da FEEDA. Sua apresentação contextualizou o debate sobre a evolução tecnológica dos elevadores e como essa transformação afeta tanto a prevenção quanto a eficiência da manutenção.
Piñero explicou que, embora o elevador funcione como um sistema fechado, a segurança se concentra principalmente na proteção física: evitar quedas, aprisionamentos, movimentos descontrolados ou falhas mecânicas. Com a digitalização, no entanto, o setor passou por uma mudança de paradigma. "O elevador conectado não exige apenas medidas de 'segurança' voltadas para a proteção física de usuários e técnicos, mas também medidas de 'proteção' contra acessos não autorizados, intrusões e ataques externos", afirmou.
É aqui que a cibersegurança entra em cena. Piñero descreveu a situação como uma "selva" e enfatizou que o setor de elevadores deve levar a prevenção nessa área muito a sério. Segundo o alerta, não se trata de riscos hipotéticos: "Há ataques a empresas e órgãos públicos por organizações criminosas que constantemente escaneiam a rede em busca de vulnerabilidades". Assim, ele destacou que a intrusão em um elevador pode resultar em riscos físicos durante uma intervenção técnica, caso um invasor acesse o sistema enquanto ele estiver em funcionamento. Isso poderia causar movimentos inesperados da cabine, abertura de portas, reinicialização do sistema ou bloqueios de manobra.
Piñero também afirmou que os riscos digitais podem ter consequências operacionais diretas para as empresas que prestam suporte. Um elevador conectado poderia ser manipulado para apresentar falhas repetidas, "falhas fantasmas", sabotagem ou tempo de inatividade. "Essas situações impactam diretamente o trabalho do técnico", alertou, gerando intervenções desnecessárias, equipamentos em estados imprevisíveis, emergências constantes e pressão adicional sobre os serviços de manutenção.
O risco aumenta quando a conectividade é suportada em plataformas iCloud: uma intrusão poderia afetar simultaneamente sistemas de elevadores, bloquear equipamentos, multiplicar alertas de emergência e sobrecarregar a capacidade de resposta das empresas de suporte.
Ao apresentar uma análise detalhada da Lei de Resiliência Cibernética, Piñero lembrou que essa regulamentação europeia introduz requisitos para produtos com elementos digitais, incluindo hardware, software, componentes, serviços de processamento remoto e plataformas em nuvem. Do ponto de vista dos técnicos, explicou ele, esses requisitos contribuem para a redução de riscos, obrigando-os a estabelecer identidades individuais, controlar sessões remotas, registrar acessos, limitar privilégios, publicar patches de segurança e gerenciar vulnerabilidades durante o ciclo de vida do equipamento. Nesse sentido, argumentou que a Lei de Resiliência Cibernética não deve ser entendida apenas como "uma regulamentação", mas sim como "uma melhoria real na segurança ocupacional dos técnicos". Com essas medidas, o elevador conectado deixa de ser um equipamento potencialmente manipulável para se tornar um sistema autenticado, rastreável e monitorado, com manutenção mais segura.
O Técnico: Última Defesa
No entanto, a segurança não é garantida por essa norma. No elevador conectado, a prevenção digital exige responsabilidade compartilhada entre o fabricante, a empresa de manutenção, a operadora do edifício e o provedor do iCloud. "Se uma dessas lacunas se fechar, há risco de maior exposição", afirmou Piñero. Portanto, lembre-se de que os riscos não desaparecem completamente: eles podem surgir devido ao gerenciamento inadequado de credenciais, erros de configuração, phishing, falsificação de identidade, laptops infectados, redes comprometidas ou vulnerabilidades não detectadas. Ele argumentou, então, que a formação clássica em segurança mecânica, elétrica e funcional deve ser complementada com habilidades em cibersegurança operacional, gerenciamento seguro de acessos remotos, proteção de equipamentos e atualização de sistemas, porque "o técnico é a última linha de defesa do elevador conectado".
Ambientes Seguros
Após analisar o impacto da digitalização e da cibersegurança no elevador conectado, o foco mudou para a qualificação de profissionais em ambientes seguros. Neste bloco, Fidel Romero Salor, professor da Federação de Empresários da Indústria Metalúrgica da província de Alicante (FEMPA) e autor de um guia de referência para técnicos de manutenção de elevadores, defendeu — a partir de uma posição pessoal e não como uma posição oficial da FEEDA — que "a formação pode ser complementar, mas não é a chave para a prevenção de riscos ocupacionais", entendendo-se por cursos de formação. E foi ainda mais importante afirmar: "Da forma como estão planeados atualmente, não funcionarão".
Para Romero, a prevenção de riscos ocupacionais se resume em três "cuidados": cuidar das pessoas, cuidar dos meios e cuidar dos procedimentos realizados.
E isso inclui a atribuição de tarefas, protocolos de trabalho, análise de objetivos, avaliação de acidentes e incidentes, alocação de equipamentos e EPIs, ritmos de trabalho e vigilância da saúde. O treinamento, argumentou ele, pode acompanhar esse processo, mas não substituí-lo: é "o envelope", não "a bomba". Verdadeiramente formativa, em conclusão, é "a cultura global da empresa, onde certas práticas são compreendidas, compartilhadas e assumidas diariamente".
Ele, portanto, aludiu ao acordo de formação do setor metalúrgico que reúne conteúdo, mas "não é um verdadeiro programa de formação". Denuncia que falta uma análise da realidade, definição de objetivos, competências, critérios de avaliação e uma estrutura pedagógica: "A prevenção de riscos ocupacionais no setor precisa de menos burocracia na formação e mais ciência da educação aplicada à realidade do elevador."
Romero propôs avançar em direção a um treinamento mais unificado, coerente e orientado para habilidades, e não simplesmente justificar horas de assistência. "Crescimento não é o mesmo que inchaço, nem complexidade é o mesmo que caos", afirmou Romero metaforicamente, denunciando que o sistema está acumulando requisitos, cursos, horas e validações, mas sem necessariamente obter eficácia preventiva.
As duas velocidades da prevenção de riscos ocupacionais
“Está cada vez mais difícil para um técnico aprender na prática em uma empresa”, disse Romero. Isso se deve ao medo, à falta de certificações ou às exigências das plataformas, e, no fim, “o técnico é o único que pode fazer isso e passa um mês observando o que outro funcionário faz. E eles não aprendem”. Nesse contexto, considera-se que o modelo atual de formação poderia gerar uma PRL (Preparação para Aprendizagem) para diferentes níveis de experiência: uma para grandes empresas com recursos especializados e outra para PMEs (Pequenas e Médias Empresas), com maiores dificuldades de acesso a treinamentos específicos e requalificação de seus técnicos.
Outros aspectos que se destacam são os vícios e a gestão de situações de conflito. Romero observou que, em equipes de 10 pessoas, “não é raro” haver alguém com problemas de dependência, e relatou que essa questão não parece ser suficientemente explicada nos treinamentos de prevenção: “Não está lá, nem de perto, mas aparece como um apêndice em alguns aspectos específicos dos cursos de treinamento”.
Conclui-se que estão sendo feitos avanços nos protocolos de resgate seguro, nos protocolos de acesso à tecnologia, nos materiais audiovisuais e na cultura preventiva promovida pelas empresas e pelo Comitê de Treinamento da FEEDA. No entanto, ele comentou que, apesar da existência de “iniciativas valiosas”, elas estão sendo implementadas dentro da estrutura atual do acordo de treinamento em prevenção de riscos ocupacionais.

Apoio europeu
O evento também incorporou a visão europeia do setor por meio da leitura de uma nota institucional enviada à FEEDA por Wim Koster, presidente da ELA. Embora o evento tenha coincidido com o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, impedindo a presença física da ELA e da Federação Europeia de PMEs do Setor de Elevadores (EFESME), ambas as organizações promoveram, pela primeira vez em 2026, uma celebração conjunta com suas associações nacionais e empresas filiadas. O objetivo era envolver todas as partes interessadas ligadas à segurança: trabalhadores, usuários, proprietários de empresas e técnicos de campo.
Koster afirmou que a segurança é “responsabilidade, compromisso e responsabilidade de todos”, destacando o apoio da Comissão Europeia, do Comité Económico e Social Europeu e da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho. Reconheceu também o papel da FEEDA e da Federação Espanhola de Associações de Pequenas e Médias Empresas de Elevadores (FEPYMA) e defendeu que a segurança “não tem barreiras”, apelando à cooperação internacional para proteger a saúde e o bem-estar no setor dos elevadores.
Em seguida, houve um bloco dedicado ao controle e à inspeção, com foco na verificação independente como parte dessa cadeia de segurança. Jordi Olivera, diretor técnico de Elevadores da TÜV SÜD na Espanha e em Portugal e membro da Federação Espanhola de Associações de Organismos de Inspeção (FEDAOC), entende que os organismos de controle não se limitam a realizar a inspeção técnica do elevador. Eles também avaliam aspectos diretamente relacionados à segurança e saúde ocupacional.
Olivera lembrou que os organismos de controlo, definidos pelo Real Decreto 2200/1995, devem possuir capacidade técnica, recursos materiais e humanos, imparcialidade e independência para verificar o cumprimento dos requisitos de segurança estabelecidos na regulamentação. Esta função, contudo, não se limita à segurança dos utilizadores, mas abrange também “todo o pessoal que tenha de trabalhar num elevador”. Partindo desta posição de independência em relação à instalação, à empresa de manutenção, ao instalador e ao proprietário, os organismos de controlo aplicam a regulamentação, realizam medições e integram a cadeia de monitorização das condições de trabalho seguras, contribuindo assim para a melhoria contínua da segurança ocupacional no setor dos elevadores.
Má comunicação = Risco?
Uma das obrigações é registrar no certificado de inspeção qualquer incidente que possa representar um risco à segurança e à saúde. Exemplos incluem acesso inseguro, irregularidades no terreno, riscos relacionados ao reboco, proteção inadequada dos postes, iluminação insuficiente ou temperaturas excessivas. Olivera também destacou a importância da coordenação com o técnico da empresa de conservação que acompanha a inspeção, que divide muitas tarefas. “Uma falha de comunicação” pode causar um acidente de trabalho.
Olivera detalhou alguns dos pontos de verificação que têm relação direta com a segurança ocupacional. No poço do elevador, os inspetores verificam o revestimento, a ausência de arestas vivas, perfurações ou saliências, as separações relativas às partes móveis, a iluminação, a ventilação, as precauções de segurança, as proteções dos postes e o acesso seguro ao poço. “Esses elementos”, disse ele, “permitem reduzir riscos como golpes, aprisionamentos, quedas em diferentes níveis ou abrasões”.
Na sala de máquinas, a inspeção concentra-se nas condições de acesso, portas e alçapões, aberturas no piso, ventilação, iluminação, irregularidades, barreiras, proteções elétricas, piso térreo, instalações hidráulicas, cabeamento e proteção das partes rotativas. Olivera destacou as salas de máquinas localizadas em câmaras frigoríficas que, durante os meses quentes, apresentam ventilação deficiente, transformando o espaço em uma espécie de "corno" que pode representar riscos para os técnicos.
Outro ponto crítico foi o teto da cabine, uma área particularmente sensível, a partir da qual se pode verificar se a manobra de inspeção está corretamente identificada, se o dispositivo de parada está acessível, se a tomada elétrica está em boas condições, se há um local adequado no solo para os elementos metálicos, se as barras reduzem o risco de queda para um nível diferente e se o dispositivo de pedido de socorro funciona corretamente. Este último aspecto é essencial caso um técnico fique preso na cabine ou na vala e precise solicitar resgate.
Olivera concluiu sua apresentação, descrevendo o papel dos organismos de inspeção como parte de uma cadeia de colaboração setorial voltada para a melhoria contínua. “Somos um dos elementos mais importantes do setor”, afirmou. “Estamos aqui para ajudar e, sobretudo, para essa melhoria contínua na segurança das instalações.” Sua mensagem destacou a inspeção independente como uma garantia técnica para verificar se a segurança não se limita ao plano regulatório ou declarativo, mas é avaliada na própria instalação.
Em nome da FEPYMA, sua presidente, Ana Martínez, agradeceu aos participantes pelo envolvimento na jornada e agradeceu à EFESME, à ELA e a todas as associações e empresas nacionais que se uniram para celebrar o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho.
Martínez afirmou que a segurança dos usuários e trabalhadores constitui o “objetivo comum e estratégico” do setor, especialmente em um segmento empresarial onde 73.3% das empresas registram um volume de vendas inferior a 3.5 milhões de euros. “Se queremos um setor seguro, precisamos garantir PMEs seguras”, declarou.
Martínez reafirmou o compromisso da FEPYMA com a promoção e disseminação da segurança ocupacional e destacou alguns dos principais temas abordados, como o rigor na manutenção, a adaptação às novas regulamentações, o papel da digitalização como ferramenta de eficiência e competitividade, e a formação prática como transmissão de aprendizado real e integrado. “A segurança não é apenas o objetivo, é o valor que norteia cada decisão, cada avanço e cada passo rumo ao futuro”, concluiu, apelando a mais colaboração, inovação e formação, com as PMEs como parte essencial do futuro do setor.
Eugenio Barroso, presidente da AECAE (associação espanhola do setor de elevadores), destacou que a segurança está “implícita no projeto, na fábrica”, a partir da qual se define o nível de risco que acompanhará o elevador ao longo de sua vida útil. Ele também ressaltou o papel da tecnologia — automação, robotização, digitalização e IA — como aliada na redução da exposição das pessoas ao risco, sempre dentro de uma “cultura preventiva”, entendida como “uma forma de trabalhar”.
José Carlos Frechilla, diretor da FEEDA, encerrou o evento destacando a segurança como elemento incontornável do setor de elevação na Espanha. “A segurança está se tornando o pilar fundamental do nosso setor”, afirmou, ressaltando que desenvolvimento, inovação e crescimento são incompatíveis sem ambientes de trabalho seguros e instalações confiáveis. Nesse contexto, destacamos a entrada em vigor do Real Decreto 355/2024 do novo ITC como um ponto de virada que obriga o setor a avançar em “exigência técnica, responsabilidade e capacidade de adaptação”.
Frechilla relacionou este novo panorama regulatório a outras questões prementes, como a digitalização, a prevenção de riscos ocupacionais, a manutenção e a necessidade de profissionais qualificados, treinados e “culturalmente comprometidos”. Ele também destacou o papel das PMEs como base do tecido empresarial e a importância de garantir a segurança desde a fase de projeto dos componentes. Em nome da federação, concluiu afirmando que a indústria de elevadores na Espanha é um setor “sério”, “responsável” e “comprometido”, com os mais altos padrões de qualidade e segurança, graças ao trabalho conjunto das organizações e empresas representadas.